Déjà-vu

Por Marina Silva:

Voltei de Rio Branco, onde fui para ajudar minha família e os conterrâneos atingidos pela enchente do rio Acre. Mas, em Brasília, tive a impressão de continuar na minha aldeia, nos distantes anos 1980.

O déjà-vu veio ao perceber a encenação em torno da “queda de braço” entre o governo e os ruralistas sobre o Código Florestal. Ela me lembrou como as empresas de transporte coletivo anunciavam, em minha cidade, um aumento no preço das passagens.

Digamos que fosse R$ 2,50 e que os empresários quisessem aumentar para R$ 3. O que faziam? Anunciavam que a passagem subiria para R$ 4, provocando indignação. Era quando entrava em cena o prefeito de plantão como um defensor do povo, dizendo que não permitiria tamanha exploração, só um pequeno aumento para R$ 3. Os empresários faziam cara de contrariedade e “aceitavam”, resmungando que era insuficiente.

Os ruralistas já tiveram seus pleitos atendidos no Senado, tem dito a ministra do Meio Ambiente. O texto garante anistia para quem desmatou, reconhece o novo relator do projeto, deputado Paulo Piau (PMDB-MG). A proteção das florestas vai diminuir, com graves consequências, e haverá aumento do desmatamento, mostram os cientistas.

Ora, pensam os “reformadores”, desse jeito a presidente pode acabar vetando, como prometeu no segundo turno da campanha eleitoral. Então fazem a velha e conhecida encenação da política com “p” minúsculo: dizem que estão muito insatisfeitos, que apresentarão emendas para diminuir os prejuízos. Resmungarão em público, mesmo comemorando na intimidade, caso seus exageros sejam recusados e permaneça a versão “desfavorável” do Senado.

É possível afrontar, assim, a inteligência da população quando se dispõe de muitos recursos e meios para sustentar a (des)informação.

É possível até mesmo apresentar o Brasil, às vésperas da Rio+20, com uma imagem internacional construída sobre os erros dos demais países, dos quais podemos ser considerados razoavelmente isentos (até quando?). Pode-se até alardear um consenso nacional inexistente, quando se encontra quem esteja disposto a participar, em nome do “inevitável”, do “melhor possível” ou de outra razão qualquer.

Estou disposta a crer que alguns conseguem enganar a si mesmos. Não creio que enganem a tantos por muito tempo. Assim como o prefeito e as empresas de transporte não nos enganavam na Rio Branco de minha juventude.

Sobretudo, não creio que consigam convencer de que o Brasil desfilará na Rio+20 com uma roupa exuberante, costurada com a proteção ambiental que só alguns, muito poucos, conseguem enxergar. Prefiro crer na indignação que essa pantomima vai provocar.